Gostinho da minha Caravan

abril 5, 2010 at 1:50 pm (Uncategorized)

Dirigindo numa estrada feia, naquela mesma caravan. No banco do passageiro, aquele pequeno corpinho de 7 anos. O pé, vestido no all star vermelho ‘sujimundo’, apoiado no painel do carro – isso realmente deveria me irritar, mas me encantava. Os cabelos rebeldes indomáveis, feios só pra quem não tem dentro de si beleza, não eram pretos, não eram castanhos. Não me ocuparei com palavras sobre o seu olhar, não teria o mínimo sentido.
Ali, com aquele uniforme sujo de um dia no parquinho do colégio, aquela criança, esbanjando aquela serenidade que se perde conforme se ganham os anos, tinha a cabeça ocupada e o olhar perdido.
No rádio, Skank tocava Garota Nacional.
Pus minha mente de motorista no automático e dispensei todas as partes utilizáveis do meu cérebro em busca do que ocuparia aquele labirinto de cabeça de menino. Em vão, já que uma vez que eu já não conseguia distinguir o que era barreira, o que era chão, o que era caminho: tinha andado pelas ruas da maturidade vezes demais para compreender.

“Beat it laun! Daun Daun!
Beat it, loom, dap’n daun
Beat it laun! Daun Daun!…”

Ele virou-se com o olhar para mim e me deu duas piscadas nervosas, como quem quer engolir o nervosismo. Colocou sua mãozinha meiga e suja sobre a minha – “Se um dia toda a luz do mundo acabar, eu seguro sua mão, ta bom?”, declarou. Suspirou com um sorriso preso no lábios fechados. O fardo daquelas palavrinhas já não estavam com ele.

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Das cartas não mandadas

dezembro 31, 2009 at 12:23 am (Uncategorized)

Caneta preta. Papel cheio de linhas, também pretas. Uma mente de indefinições, sendo a maior delas a saudade. Passou a escrever:

“Querida,

Eu sinto falta da sua constância. Da sua modéstia e inteligência tão bem trançadas. Eu sinto falta da sua maneira de ‘abraçar’ os cadernos. Sinto falta de te ver sentada no chão com as crianças e do brilho dos seus olhos que esses momentos provocavam. Eu sinto falta da firmeza com que segurava minha mão e me abraçava.
Saudade de tempos ainda mais antigos, daqueles de fazer comidinhas com qualquer coisa que existisse no quintal e das nossas aventuras na selva de bancos. Saudade de te esperar na janela da minha lavanderia, de andar pelo corredor de pedras em bicicletas evidentemente pequenas demais para nosso tamanho e de dividir até mesmo a louça nossa de cada dia.
Eu sinto falta da sua organização e meiguice. Das vezes que você, com paciência e cuidado imensos, cuidava das minhas unhas e do meu coração. Sinto falta até mesmo de somente saber estar no mesmo recinto que você. Saudade dos olhos apertados e das covinhas que aparecem quando você sorri. E essa falta me dói, me embrulha o estomago e me dificulta a respiração.
Isso porque eu te amo, amiga. E você foi embora sem se despedir. E eu continuo a te amar. A amar também, na mesma proporção e medida, o que nós fomos juntas.

Sempre sua,
Carolina”.

Ainda sem enxugar as lágrimas, como se curti-las ajudasse a curar suas indefinições, arrancou a folha do caderno. Dobrou-a e colocou-a num envelope. Escreveu, para identificar, “Uma carta saudosa para uma amiga distante” no envelope. E disse a si mesma que essa seria mais uma das cartas que nunca sairia daquela caixa, a caixa das cartas jamais lidas por outros olhos.

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Pra não dizer que não falei do vento

dezembro 1, 2009 at 12:17 am (Uncategorized)

Fazia muito calor. O lugar, apesar de ser aberto, como uma sacada, era claustrofóbico. O papo, apesar de muito agradável e leve, não condizia com o que realmente queria ser dito. E para sobreviver – não falo de algo como caçar, mas de conseguir manter as inspirações e expirações na ordem certa, por mais involuntário que isso seja – ele continuava o mascar do chiclete, já sem gosto e praticamente sem elasticidade, num ritmo que fazia com que seus pensamentos não fugissem daquele momento para um lugar mais dele.

Manteve-se sorrindo. Na verdade era uma de suas marcas: um sorriso claro e misterioso, que era o mesmo, na sua multiplicidade de intenções e significados. A minoria das pessoas conseguia entender isso. Definitivamente nenhuma das pessoas que lhe rodeavam naquele momento entendia. Porque achavam que ele sorria, enquanto era movimento puramente mecânico que lhe mantinha ali, respirando aquele ambiente.

O assunto lhe fugiu, mais do que normalmente e no titubear entre uma mascada e outra, sua mente foi. E ninguém pareceu perceber, por causa do tão dito sorriso, que era droga e remédio, sem muita distinção entre os dois.

E, interrompendo-o, no 2º segundo de devaneio, o vento. [Impossível não se sentir em casa.]

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Sobre Livros e Paisagem

agosto 29, 2009 at 2:23 am (Uncategorized)

No apartamento, tinha até um cantinho especial. Era onde conseguia, mesmo com todos os problemas e toda a canseira, sentar no sofazinho e pegar o livro. O sofazinho era encostado numa parede de vidro, que dava uma visão, a partir do alto, da cidade que a cercava. E a vista combinada com as palavras que interiorizava compunham o gole de água de cada dia.
Mesmo com as inúmeras vezes que ali tinha sentado, a cidade parecia mais brilhante naquele dia. Abriu o livro, estava nos últimos capítulos. E leu. E só tirou os olhos marejados quando os mesmos tinham percorrido a última letra da última palavra. Olhou pra paisagem, a cidade lhe deu uma piscadela. Tinha entendido, as palavras tinham abraçado e trazido a segurança.

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Viagens [2]

agosto 6, 2009 at 4:02 pm (Uncategorized)

 

Quando estava escrevendo o post anterior me lembrei de uma das melhores viagens que fiz… eu era pequena, mas eu lembro quase tudo sobre esse dia. E não foi pelo lugar que a gente foi, nem porque era férias, nem porque o hotel tinha monitores, um café da manhã avassalador, nem a piscina aquecida com cascata mais legal , nem porque eu andei de ponei. Foi uma viagem surpresa.

Minha mãe e meu pai planejaram a viagem pra um hotel, Fredy, em Águas de Lindóia – a cidadezinha mais pacata que eu já fui -, arrumaram as nossas malas escondido no dia anterior, acordaram eu e meu irmão cedo e falaram que iam levar a gente pra um lugar. Passeamos um pouco pela cidade, pra dar aquele suspense. Cada rua a gente dava um palpite pra ver se acertava o nosso destino.

Mas foi a hora que a gente entrou na pista que saquei: a gente estava viajando, por isso que naquela manha eu não consegui achar minha sandália branca predileta. Minha mãe tinha pensado nisso e posto na minha mala.

Lembro que eu olhei pra fora, para aquele monte de casinhas que beiravam a pista, onde o sol batia com intensidade, fazendo com que o horizonte ficasse laranja e me apaixonei. Pela surpresa. Pela estrada. A viagem já tinha valido a pena.

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Viagens [1]

julho 4, 2009 at 3:05 am (Uncategorized)

The Real Princess by Edmund Dulac via ArtsyCraftsy

Achei essa imagem passeando por ai (http://thatunreliablegirl.blogspot.com/) e esta me fez através do que Chomsky diria ser um mistério lembrar das viagens de carro que fiz quando eu era ainda menor e mais descabelada que hoje.

Detalhes sórdidos à parte, era assim que funcionava: depois de juntar meus trapos durante uma semana e por pelos menos 3 vezes e dormir mal e porcamente na noite da véspera da viagem, eu preparava meu/do meu irmão banco de trás do carro, isso enquanto o resto da minha familia fazia aquelas coisas entediantes de gente grande, como por exemplo colocar os meus trapos no porta mala.

Meu negócio mesmo era pegar os travesseiros e edredons de todo mundo (mesmo que a gente fosse ficar em hotel, era importante levar, coisa de mãe) empilhava distribuidamente, em camadas homegêneas (com a quantidade de desorganização que qualquer coisa que eu faço tem) e assim como a garota da imagem, sentava e esperava o resto terminar, porque, na minha opinião, o essencial – leia-se o banco de trás – estava pronto pra por o pé na estrada ; )

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Insigth

junho 27, 2009 at 1:55 pm (Uncategorized)

Sabe quando voce está pensando em uma pessoa/música/banda/nome/frase/whatever, tá com a palavra na ponta da lingua e ela simplesmente escapa? Sabe quando você tem aquele sentimento/estado de espírito/emoção/etc mas não consegue dizer o nome? Achei uma foto que capturou com todas as letras o meu momento… (e por mais clichê que seja, clichês se tornam clichês por algum motivo)

The Best Things in Life Aren't Things via FFFFound

E, só pra constar, eu tenho uma coisa por escritos em muro…

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Aula de Literatura [contemporanea]

junho 5, 2009 at 10:04 pm (Uncategorized)

“Escrevo romances por isso, para esvaziar o cérebro, para xeretar a vida dos outros sem atormentar ninguém. E concordo com um autor, não me lembro qual, eu mesma?, que dizia: se todo mundo mantivesse os olhos presos num livro, não seria necessária a intriga.”

Fernanda Young (em A Sombra de Vossas Asas)

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Alter ego

junho 5, 2009 at 12:36 am (Uncategorized)

imagemblog 

Sem mais.

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Montanha Russa.

maio 12, 2009 at 4:49 pm (Uncategorized)

 rollercoaster

O parque de diversão estava de volta à cidade. Ela voltou lá com um propósito: iria subir na montanha russa, faria uma viagem e sairia daquele lugar que, para ela, nada mais era do que o mundo das memórias.

Entrou na fila para conseguir ‘embarcar’ num carrinho, calculou mais ou menos para ficar entre os primeiro a escolherem seus lugares, porque assim poderia ficar no carrinho, o mesmo carrinho que foi da ultima vez. Conseguiu.

O primeiro tranco. A primeira curva, a subida íngreme em seguida. A segunda curva, que precedia a primeira e mais acentuada decida. E como uma onda violenta e tempestuosa, o mesmo sentimento que fez com que ela, há exatamente um ano, procurasse o olhar doce e seguro dele, acertou-a em cheio.

Foram segundos e todas as cenas se passaram tão claramente que pareciam reais: o sentimento, a procura pela figura do amado, a incrível sincronia que fez com que naquele momento os olhos dele e dela se encontrassem de uma maneira tão calorosa e intima, o impulso de dizer que ama que o medo dá, o coração desenhado no ar, beijo lançado no ar em troca. Tudo isso lembranças, sendo lembranças somente.

De volta do Déjà vu, ela estava passando no lugar onde o coração que ela tinha desenhado ainda pairava. E ela sabia disso porque sentiu como que um jato de ar, que lhe deu um atordoamento esclarecedor: Estava na hora de parar com as conjecturas, com as divagações, com as duvidas. Ela tinha tomado a decisão certa ao dar um fim. Aquele coração era hipócrita, a vida merecia um ato menos covarde que aquele. A decida foi libertadora e desprovida de qualquer medo.

Ela saiu do brinquedo com a cabeça levantada, mesmo que seu cabelo estivesse uma bagunça. E caminhou com firmeza.

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