Gostinho da minha Caravan
Dirigindo numa estrada feia, naquela mesma caravan. No banco do passageiro, aquele pequeno corpinho de 7 anos. O pé, vestido no all star vermelho ‘sujimundo’, apoiado no painel do carro – isso realmente deveria me irritar, mas me encantava. Os cabelos rebeldes indomáveis, feios só pra quem não tem dentro de si beleza, não eram pretos, não eram castanhos. Não me ocuparei com palavras sobre o seu olhar, não teria o mínimo sentido.
Ali, com aquele uniforme sujo de um dia no parquinho do colégio, aquela criança, esbanjando aquela serenidade que se perde conforme se ganham os anos, tinha a cabeça ocupada e o olhar perdido.
No rádio, Skank tocava Garota Nacional.
Pus minha mente de motorista no automático e dispensei todas as partes utilizáveis do meu cérebro em busca do que ocuparia aquele labirinto de cabeça de menino. Em vão, já que uma vez que eu já não conseguia distinguir o que era barreira, o que era chão, o que era caminho: tinha andado pelas ruas da maturidade vezes demais para compreender.
“Beat it laun! Daun Daun!
Beat it, loom, dap’n daun
Beat it laun! Daun Daun!…”
Ele virou-se com o olhar para mim e me deu duas piscadas nervosas, como quem quer engolir o nervosismo. Colocou sua mãozinha meiga e suja sobre a minha – “Se um dia toda a luz do mundo acabar, eu seguro sua mão, ta bom?”, declarou. Suspirou com um sorriso preso no lábios fechados. O fardo daquelas palavrinhas já não estavam com ele.